“Os Esforços da Europa” – um artigo de opinião com estatística, por Isabel Castro e Silva, Associate na Aura REE Portugal

O investimento estrangeiro tem sido uma constante em Portugal e nem a pandemia da covid-19 foi motivo para abrandamento, muito pelo contrário. Ao longo de 2021, o investimento de várias nacionalidades em imobiliário na Área de Reabilitação Urbana de Lisboa terá rondado os 923 milhões de euros, valor que supera em 20% os máximos registados em 2019.

O ano de 2022 tem sido marcado pela presença de investidores norte-americanos no mercado imobiliário nacional, começando a haver algumas associações entre Portugal e o tão famoso “sonho americano”. Dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) indicam até que os norte-americanos passaram a ser os líderes do ranking do investimento gerado através dos Vistos Gold, facto potencializado pela pandemia da covid-19 que voltou a comprovar a capacidade de Portugal para captar investimento estrangeiro.

A localização, o clima, a gastronomia e o custo de vida são alguns dos factores que mais atraem os investidores estrangeiros, mas como se comporta o mercado nacional para os próprios portugueses? Será que os portugueses têm ao seu alcance todas as possibilidades para, também eles, se tornarem investidores imobiliários? Será que Portugal é o país da Europa ideal para vivermos e investirmos?

Começamos por analisar o salário médio mensal líquido de algumas das principais cidades europeias:

Fonte: Numbeo

Das 30 cidades seleccionadas, Lisboa encontra-se em 24º lugar no ranking, com um salário médio mensal líquido de 1.023€, cerca de 53% abaixo da média das cidades analisadas (2.195€). Nesta posição, a capital portuguesa fica apenas acima das capitais da Croácia (Zagreb), Letónia (Riga), Hungria (Budapeste), Bulgária (Sófia), Roménia (Bucareste) e Grécia (Atenas). De forma geral, é conhecido e reconhecido que Portugal é um país de salários baixos. Contudo, dados do Instituto Mais Liberdade, baseados no Eurostat, revelam que Portugal, não só tem salários baixos, como tem uma das cargas fiscais mais elevadas sobre o trabalho (IRS).

No que diz respeito ao mercado imobiliário, verificou-se que Lisboa aparece no 16º lugar no ranking das cidades onde o preço por metro quadrado na compra de apartamento no centro da cidade é mais caro (cerca de 5.173€/m2).

Fonte: Numbeo

Juntando o conjunto dos dados, é possível criar o top 10 das cidades onde o preço por metro quadrado na compra de um imóvel no centro da cidade tem um menor peso no salário médio mensal líquido:

Fonte: Numbeo

Lisboa surge em último lugar do ranking, com o preço por metro quadrado a representar 506% do salário médio mensal líquido nacional:

Fonte: Numbeo

Nota: Destacamos que no presente estudo foi apenas verificado o preço médio por metro quadrado, excluindo-se assim questões relacionadas com impostos de aquisição, despesas processuais das instituições financeiras, taxas de juro e qualquer outra variável não referida.

Existem diversas modalidades de investimento como é o caso da aquisição para revenda ou para posterior arrendamento. Tendo em consideração um cenário de investimento para arrendamento, é importante verificar qual é a capacidade de pagamento e, consequentemente, a taxa de esforço média dos habitantes locais de forma a que se verifique a possibilidade de retorno do investimento. Desta forma, procedeu-se à análise dos custos médios de uma renda no centro das diferentes cidades seleccionadas. Foi assim possível criar um ranking das cidades onde a renda mensal de um apartamento T1 no centro da cidade representa o menor peso sobre o salário médio líquido mensal:

Fonte: Numbeo

Lisboa surge, novamente, em último lugar do ranking, com a renda de um T1 a alcançar os 875€ mensais, representando cerca de 86% do salário médio mensal líquido de um português:

Fonte: Numbeo

Se ao presente estudo adicionarmos os custos médios com despesas fixas, verificam-se algumas alterações no top 10, com Zurique a manter o primeiro lugar e com Estocolmo e Copenhaga a surgirem na tabela.

Fonte: Numbeo

Lisboa mantem o último lugar, com um custo total mensal estimado de 1.021€, o que representa 99,9% do salário médio mensal líquido nacional.

Fonte: Numbeo

Notas:

* – Inclui estimativas mensais de água, luz, aquecimento, lixo e internet

Tendo em consideração a totalidade dos dados analisados verificamos que, de entre as cidades seleccionadas, os lisboetas são aqueles que têm mais dificuldade em viver no centro da cidade, não sendo uma realidade sustentável ou viável para alguém que ganhe o salário médio mensal. Por outro lado, cidades onde o custo de vida até é mais elevado do que em Lisboa, tais como Bruxelas, Reykjavik, Copenhaga ou Amesterdão acabam por revelar valores mais interessantes e as “taxas de esforço” mais pequenas tanto num cenário de compra como de arrendamento.

Zurique, por sua vez, e apesar de revelar as melhores condições de arrendamento de entre as cidades seleccionadas, com todos os custos referentes a um imóvel (renda e contas) a rondarem os 35% do salário médio mensal líquido, tem o preço por metro quadrado de compra mais elevado (16.085€).

Nota:

Os presentes dados são relativos a 15 de Junho de 2022.