“Mudam-se os tempos, mudam-se os mercados”

“Ó freguesa, venha cá ver o peixinho fresquinho”, apregoavam vezes sem conta as vendedoras das praças de outros tempos. Nos dias de hoje, mais comumente ouvimos a expressão “mercado”, da mesma forma que continuamos a ouvir esta e outras frases, mas na maioria das vezes não com o mesmo vigor e energia de há umas décadas atrás. Mudam-se os tempos e decididamente mudam-se os mercados.

As praças que em muitos casos eram estruturas quase a céu aberto, algumas com clarabóias de segurança duvidosa, rodeadas por expositores de rua e muitas das vezes por vendedores ilegais com mantas ou alguidares espalhados pelo chão, tiveram uma enorme evolução ao longo dos anos, não só pelo policiamento e vigilância, mas principalmente pela reabilitação e requalificação destes espaços.

Um pouco por todo o país temos assistido a esta evolução no segmento comercial, que tem contribuído para uma revitalização e valorização do património, assumindo-se como um testemunho vivo da nossa identidade que tem também passado por sucessivas transformações. Da mesma forma que vimos muitos edifícios de escritórios a serem convertidos e adaptados em edifícios habitacionais, assim como o inverso também tem acontecido, assistimos agora a enormes mudanças neste tipo de mercados. Mesmo que a finalidade do segmento de retalho se mantenha, deparamo-nos com elevadas alterações consideradas como opções gourmet e até mesmo designadas por cosmopolitas, estando grande parte também fora das metrópoles.

Os antigos mercados tradicionais são hoje um espelho de uma nova era, onde o apregoar das vendedoras, os cheiros das frutas, dos legumes e do peixe, se misturam com a modernidade do interior, com novos espaços de restauração e em muitos casos com um apelo à cultura, numa tentativa de levar também novos fregueses e visitantes, numa busca incessante de novos estímulos. Muitos municípios incentivaram proprietários privados para a para a conservação e recuperação destes singulares edifícios, parte deles nos centros históricos das cidades e freguesias. Um pouco por todo o país existem vários exemplos desta transformação.

Há muitas décadas atrás com a ascensão das grandes superfícies, em particular dos supermercados, mutos comerciantes queixavam-se da falta de clientes que anteriormente quase faziam fila nas suas bancas. Embora se pense que este tipo de reabilitação afundou a venda tradicional, hoje em dia parece que essa realidade se foi alterando com o tempo. A reabilitação de antigos mercados que apostaram em criar espaços de restauração já fizeram aumentar numa larga percentagem o número de visitantes, que opta por aqueles espaços e tendencialmente acaba por adquirir produtos frescos. As bancas de vendedores com o antigo avental misturam-se agora com a sofisticação dos novos espaços de restauração gourmet.

A degradação de muitas destas estruturas como é o caso do Mercado de Campo de Ourique foi a principal motivação do município de Lisboa e de outras autarquias para concessionar alguns locais e torná-los mais atrativos. Outro dos exemplos, também na capital do país, é o Mercado da Ribeira, agora explorado pela revista Time Out, que reúne o mercado tradicional e uma praça de restauração e esplanada. Mais a norte, na invicta, encontramos o Mercado do Bolhão que tem a reabertura agendada ainda para este mês de setembro e que a par com muitos dos que foram reabilitados, sofreu também variadíssimas alterações.

Todas estas requalificações são de extrema importância para a evolução da própria sociedade, das suas infraestruturas e necessidades, destacando ainda algumas intervenções que foram merecedoras de galardões, como é o caso do – A ´Praça – Mercado Municipal de Braga´, distinguida com duas menções honrosas, nas categorias impacto social e melhor reabilitação estrutural, no Prémio Nacional de Reabilitação Urbana. Também o projeto da Praça – Mercado de Famalicão, venceu o Prémio Nacional de Imobiliário 2022 na categoria de Equipamentos Coletivos. Os tempos mudam, os mercados também e até essas mudanças são motivo para condecorações.