“Existem muitos estrangeiros neste momento que querem mudar para Portugal“ – James Frost, Wine Producer and Manager na Quinta de Sant’Ana

Após sete anos no exército na Alemanha, James de nacionalidade inglesa, mudou-se para Portugal em 1992 para encontrar uma solução para Quinta de Sant’Ana, localizada no Gradil, em Mafra. James e a sua mulher Ann, desenvolveram vários negócios, dos quais se destacam os eventos, turismo, vinho e mais recentemente flores.

Apaixonado por Portugal, por vinhos, agricultura e jardinagem, James que conta com uma fantástica família de 7 filhos, tem já parte deles a ajudar na quinta e com um enorme interesse pela natureza e pela produção vinícola.  Numa breve visita à Quinta de Sant’Ana, o Brainsre.news teve o prazer de conhecer diversos recantos encantadores com todos os aromas que por ali se difundem, estendidos pelos vários hectares que o espaço disponibiliza.

O que o trouxe a Portugal? Conte-nos um pouco a sua história.

Estava a fazer serviço militar no exército britânico e o meu regimento estava na Alemanha, na altura já namorava com a Ann, a minha mulher, ela é alemã e eu sou inglês e viemos cá passar férias em 1992. Esta quinta foi comprada pelos meus sogros nos anos 60, a família vinha cá passar férias e tinham saído de cá na altura da revolução, quando voltaram para a Alemanha. Em 1992, eu estava em vias de sair do exército e o meu sogro pediu-me para vir à quinta com o objetivo de a vender ou fazer crescer aqui algum negócio. Sou um apaixonado por propriedades antigas e como venho de uma família de agricultores, adoro o campo, a natureza, animais e agricultura. Achei que era um desafio fantástico, a parte de restaurar casas antigas, de fazer jardins é das coisas que mais gosto. Abracei então este desafio e vivi aqui durante 8 meses sozinho antes de casar e desde essa altura recuperámos, construímos negócios e conseguimos comprar a quinta da família ainda na década de 90.

Quando chegou já tinha ideia do projeto que ia desenvolver ou como surgiu?

A ideia surgiu depois de chegar, tudo cresceu organicamente. Quando chegámos ao Gradil, o local não estava quase no mapa, não era muito conhecido e não era uma zona muito procurada. Na altura em várias outras quintas já se realizavam eventos, por isso recuperámos uma antiga fábrica no interior da quinta e pensámos que seria um sítio interessante para eventos. Logo começámos a fazer a renovação e a adaptar a espaço para eventos- Esta foi uma decisão relativamente óbvia para nós e por outro lado sabíamos que existe aqui um grande potencial para turismo. Ajudou-nos bastante o fato de sermos estrangeiros e conhecermos o mercado, até mesmo pelos contatos que tínhamos, inclusivamente a falar em inglês e alemão, o que nos ajudou bastante no início, por isso o turismo surgiu automaticamente.

Nesta altura ainda não tínhamos filhos e fizemos turismo de habitação, todos os verões saímos da casa principal para a casa do caseiro e no inverno voltávamos para casa. Temos 7 filhos e quando a nossa família começou a aumentar, tivemos que parar e viver sempre na mesma casa.

Esta quinta sempre fez vinho, a adega é muito antiga, tem centenas de anos, mas quando começámos em 92, o vinho não tinha qualidade para engarrafar e rotular, era muito rústico e antigo, tanto as vinhas, como a adega. No primeiro ano fiz vindima e um tonel grande de 6.500 litros de vinho tinto, que foi um grande desafio e simultaneamente um grande prejuízo, acabou por ser uma experiência engraçada que nunca vou esquecer, mas não quero repetir. Depois deste primeiro ano, vendemos as uvas à cooperativa mais próxima, mas foi óbvio desde o início que não seria solução. Sempre quis fazer mais agricultura e mais tarde decidimos fazer vinhos de alta qualidade, que para o nosso negócio é uma componente chave porque além de ser uma paixão é também um chamariz para a quinta. O nosso negócio principal é de hospitallity e existe um fenómeno muito romântico do que é a vinha, a produção de vinho, existem muitos filmes que mostram esse lado muito atrativo, muitas pessoas querem casar numa vinha, numa quinta vinícola. Os nossos vinhos são todos biológicos e sempre foi nossa intenção mudar a quinta e ter também agricultura regenerativa.

Acabou por ser tudo natural e também óbvio no crescimento do nosso negócio. Mais recentemente decidimos também produzir flores, há cerca de dois anos e meio começámos a fazer produção porque eu adoro jardinagem e a Ann é também florista e artista e pensámos que seria um sucesso, que já está a ser.

Voltaria a escolher Portugal para investir?

Sim, sem dúvida! E está a acontecer exatamente o mesmo agora, existem muitos estrangeiros neste momento que querem mudar para Portugal e não é só por causa dos benefícios fiscais. É pelo clima do país, pelo mar, a qualidade de vida que é bastante alta e também existem ajudas para as pessoas iniciarem negócios. Não é fácil, há que ter esta mentalidade de que é realmente preciso trabalhar, não é qualquer pessoa que tem o desejo ou vontade de trabalhar tanto e não quero parecer arrogante, mas aqui trabalhamos muito. Como faço muitas provas de vinho, muitas pessoas pensam e até dizem que estou a viver a vida, o que acaba por ser verdade, mas para isso tenho também que trabalhar muito neste projeto.

Chegou a Portugal em 1992 e iniciou este projeto no mesmo ano, pensa que chegou na altura certa a Portugal?

Sim, tive muita sorte de chegar nessa altura porque Portugal e estas zonas mais pequenas eram ainda pouco conhecidas. A Ericeira, por exemplo, nos últimos 5 anos mudou muito e falo essencialmente de estrangeiros, de pessoas que investem na zona, que querem comprar terrenos ou casas. Agora a procura é enorme, por isso penso que chegámos numa óptima altura. Tivemos algumas ajudas agrícolas, principalmente na parte da vinha e quanto a criar o negócio aqui, talvez tenha sido um disparate da nossa parte, mas não aproveitámos nenhum apoio do Governo ou europeu. Este tipo de projetos, da forma como nós fizemos, precisam de tempo, não é algo que se faça de um dia para o outro.

Quais os desafios durante a pandemia, principalmente quando vivem muito dos eventos que organizam na quinta?

Foi muito difícil, temos uma equipa permanente de mais ou menos 16 pessoas e a maior parte estão ligados aos eventos, ao turismo e foi muito complicado. A nossa faturação parou, o ano passado tínhamos mais de 60 casamentos marcados, 40 ou 50 corporates, todas as casas estavam reservadas com hóspedes dos casamentos e de repente ficou tudo vazio, foi tudo cancelado e adiado pouco a pouco. O cash flow foi a zeros, mas tivemos ajudas do governo, alguns casos de lay off e a nossa equipa foi fantástica, foi muito difícil também para eles toda esta incerteza.

Mas felizmente parece que estamos a começar a melhorar, fizemos recentemente o terceiro evento. Recomeçámos há três semanas e até ao final de outubro já temos bastantes marcações. Foi bom também porque nos forçou a melhorar a nossa loja online, a enviar newsletters e a comunicar melhor com a base de dados que temos e que é enorme. Durante o confinamento, a venda do vinho subiu imenso, tivemos no ano passado um mês de abril fantástico e este ano já fizemos bastantes provas de vinho e as vendas estão a correr muito bem.

Como membro da EO (Entrepreuneurs’ Organization), como tomou conhecimento da organização?

Foi através de um amigo do Reino Unido que trouxe à quinta o fórum dele, para fazer um retiro, ficaram numa das nossas casas que é bastante isolada e grande e dá para o grupo se alojar e ficar mesmo no meio do campo. Uma noite vieram jantar connosco, antes fiz uma prova de vinhos com eles e foi neste jantar que me explicaram o que era a EO. Ainda penso que não sou a pessoa ideal para a EO, mas as histórias deles eram muito parecidas e desafiantes como as nossas.  Quando começou o chapter em Portugal falaram comigo e foi assim que acabei por entrar na organização.

Tem aprendido com outros empreendedores da organização?

É estranho porque cada vez que um fórum se aproxima, tenho sempre o mesmo sentimento de que não tenho tempo e que tenho imenso trabalho, mas acabo por participar.  Quando termina penso sempre que ainda bem que sou membro e que fico a ganhar sempre com estas reuniões. Sempre nos sentimos bem, é um formato muito bom, acho que o nosso fórum é muito especial e tem um bom sentimento partilhado com o grupo. Eu sinto que devia fazer mais, mas pessoalmente ganhei muito a ser membro da EO e do meu fórum.