E o direito a desligar?

João Fonseca – Perito Avaliador de Imóveis – MRICS, REV, CMVM

Sinceramente, o tema para este artigo estava para ser outro. Ia escrever sobre as minhas leituras de férias. Estas, têm sempre duas vertentes. Tento sempre uma leitura mais ligeira, acompanhada do folhear de alguma leitura mais técnica. Como alterei a minha ideia inicial, pelo menos ficam a conhecer aquilo que vou ler. Um dos livros é o Cão Como Nós, de Manuel Alegre, ISBN 972-20-2301-2, que me deixa sempre emocionado, sempre que o revisito. Folhearei também, na parte final das férias, numa leitura em diagonal, o mais recente livro sobre avaliação de imóveis, obrigatório em qualquer biblioteca, que é o Avaliação Imobiliária, de autoria de Mário Pinho de Miranda e de Rui de Sousa Camposinos, ISBN 978.989.33.1449.4.

Não estranhem que eu leve para férias um livro sobre avaliação de imóveis. É impossível eu conseguir desligar completamente da minha profissão.

Os períodos anteférias são particularmente dolorosos, porque me obrigam a um esforço suplementar. Tenho que concluir e entregar todos os processos, antes do meu merecido descanso, porque compromissos são compromissos. E nesta freima dei-me a pensar que o meu direito a desligar estava a ser comprometedoramente alienado. Não escapei, nos últimos dias de trabalho, a umas quantas jornadas noturnas suplementares, com prejuízo evidente para a minha família.

Estando eu a lamuriar-me desta desdita, rapidamente conclui que estava a ser egoísta. Afinal, eu sou um privilegiado!

Eu não tenho prazos de setenta e duas horas para iniciar e concluir um trabalho, nem tenho um ror de processos abertos para despachar, sobre pena de ser penalizado, nem tenho ninguém a pressionar-me para concluir um trabalho, sistematicamente. Pois isto é o que acontece aos meus colegas que trabalham no crédito hipotecário.

A sua atividade encerra uma série de passos que que passamos a enumerar: deslocação ao imóvel e vistoria ao imóvel em avaliação, prospeção de imóveis comparáveis na envolvente do imóvel em avaliação, consultas a bases de dados imobiliárias e outras fontes de informação, homogeneização da amostra, elaboração do relatório segundo os métodos mais apropriados a cada caso e entrega do relatório ao cliente.

Vamos crer que uma remuneração mensal bruta de 2.000€, mais à frente falaremos das despesas de um perito avaliador, é adequada para um técnico com alguns anos de experiência e uma formação que não se esgota num curso de nível superior. Recebendo ele 40€ por avaliação, teria de fazer, por mês 50 avaliações.

Vamos agora supor que este técnico é muito eficiente e entre deslocações (uma hora), vistoria (meia hora), prospeção (uma hora), homogeneização (meia hora) e entrega do relatório (meia hora) vão quatro horas. Nisto vão 200 horas de trabalho. Ora, uma jornada mensal de trabalho são 176 horas.

Se for exigido a estes técnicos formação contínua, e deve ser exigida, estas 200 horas têm que ser esticadas!

Nunca a canção do Sérgio Godinho foi tão apropriada:

“Vi-te a trabalhar o dia inteiro

Construir as cidades pr’ós outros

Carregar pedras, desperdiçar

Muita força p’ra pouco dinheiro…”

Afinal, de que me queixo? Estes meus colegas é que não têm mesmo o direito a desligar. São horas atrás de horas a trabalhar, de manhã, à tarde e à noite e pouco lhes sobra para o mais importante, a família.

Só mais um pouco do vosso tempo para enfatizar que uma remuneração mensal de 2.000€, sem direito subsídio de férias nem subsídio de Natal, não é uma grande remuneração. A este propósito, transcrevo umas palavras tragicamente engraçadas de um colega acerca da sua atividade, retiradas de uma rede social:

“Já que existem colegas com estatísticas, vou apresentar as minhas de 2017:
N.º de avaliações – 1.322
Valor médio cobrado por avaliação – 35,74€
Km percorridos – 57.110 km
Horas de trabalho – 3.975 horas
Custos (retenções na fonte, segurança social, transportes, comunicações, gasóleo, reparações, investimento em equipamento) – 23.350€Valor líquido por hora de trabalho – 5,77€/hora”

Desde 2017, as coisas não mudaram muito.