“Crónica de uma semana como as outras” – João Fonseca – Perito Avaliador de Imóveis – MRICS, REV, CMVM

“É dono do seu tempo. Para ele, um dia nunca é igual ao outro.”

Foi com estas frases que quase terminei a minha última escrita. Sinto-me assim obrigado a materializar aquelas afirmações, partilhando como os meus dias se sucederam, um após o outro, durante uma semana como as outras.

As segundas-feiras começam, invariavelmente, da mesma forma. Alimento as minhas redes sociais com a divulgação do último artigo que escrevi no meu blogue e organizo a minha caixa do correio.

Esta segunda-feira estava morrinhenta e fresca, antecipando o S. João. Faltava só o cheiro a manjerico. Estavam reunidas as condições ideais para ir descobrir alguns terrenos rústicos em Valongo, na “Quinta da Lousa”. Esta zona é muito conhecida pela exploração de lousa, muito característica neste concelho, com galerias e poços no subsolo.

Os terrenos rústicos são uma constante preocupação para os peritos avaliadores, ficam sempre perdidos no meio de nada. Este facto não constituiria um problema se o cadastro rústico estivesse concluído em Portugal. Ao contrário do sul do país, onde está praticamente feito, no norte isso não acontece. A única informação disponível são os confrontantes que, muitas vezes, já não existem ou já não são os proprietários ou ninguém sabe quem eles são. Uma verdadeira dor de cabeça!

Na década de oitenta do século passado, a visão de um autarca para o concelho passava pela construção de uma cidade nova na “Quinta da Lousa”. A mensagem foi exaustivamente passada e um valor especulativo passou a pesar nas avaliações imobiliárias. Só que as coisas não acontecem como nós queremos, existem crises imobiliárias, existem alterações de Planos Diretores Municipais e, consequentemente, sobram imparidades. Arriscar-me-ia a escrever que algumas imparidades bancárias têm aqui origem.

Os três dias seguintes foram dias de trabalho de escritório.

O problema nestes dias de escritório são as interrupções desnecessárias. É sempre fácil dizer que não se deve atender chamadas, que as pessoas ligarão mais tarde e que sempre as poderemos devolver. Mas subsiste sempre aquele dilema de um “sole practioner”: e se for um potencial cliente?

É aborrecido, porque sempre nos quebra o raciocínio. Temos, também, de compreender que quem trabalha sozinho tem a necessidade de comunicar com alguém. Este é um dos motivos por que eu não acredito na eficácia do teletrabalho, puro e duro, sem dias de comunidade. Assim sendo, é muito difícil não atender o telefone.

A cada duas horas de escritório, ou talvez menos, tenho o hábito de fazer pequenas interrupções. São essenciais para o aumento da produtividade. Nestes dias, as interrupções foram de duração superior, porque alguns “nuestros hermanos” andaram a fazer “trinta por uma linha” em Roland Garros. Foi impossível não espreitar.

Confesso que nesta semana transigi num aspeto muito importante do quotidiano de um perito avaliador: a disciplina. A disciplina e a gestão do tempo são fundamentais para o sucesso da atividade e para a manutenção do equilíbrio entre vida privada e vida profissional.

No terceiro dia houve ainda a necessidade de preparar a vistoria aos imóveis, que iria fazer no último dia da semana, a “Um Reino Maravilhoso”, como tão bem descreveu Miguel Torga:

“Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. (…) Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas. (…) Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:

– Entre quem é! Sem ninguém perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar, escancara-se a intimidade duma família inteira. (…)”

Chegar do Porto a Mirandela, agora, não tem encanto. Saímos do escritório, enfiamo-nos numa autoestrada e chegamos ao destino. O progresso fez perder a passagem junto ao Palácio de Mateus, o serpentear das curvas de Murça, maldizendo os camiões que vão à nossa frente e não nos permitem a passagem, e, finalmente, sentir o cheiro da terra.

Parei o carro e cheguei-me à borda da estrada, enquanto abraçava os cheiros e os murmúrios. Um leve sussurro assoprou insistentemente para que eu os levasse comigo.

Foi, de resto, um dia de trabalho normal. Reuniões, vistorias e o regresso a casa.

Hora de jantar.

De jantar uma bela de uma alheira de caça, comprada onde devem ser compradas, sem antes provar uma linguiça de porco bísaro, acompanhada de um belo branco de Freixo de Espada à Cinta.

Que chatice, esta vida de avaliador!