Construção precisa de uma mão (de obra)

O setor imobiliário continua a deitar cartas na economia portuguesa, mesmo em tempos conturbados em que a crise sanitária afeta a economia do pais.

Existem, porém, outros setores que estão a sofrer alguns constrangimentos e estão também ligados ao setor imobiliário nos seus vários segmentos. Destacam-se a hotelaria, a restauração e a construção que têm vindo cada vez mais a ressentir-se, não só pelos sucessivos confinamentos, mas acima de tudo pela escassez de mão de obra.

De braço dado com o imobiliário está o setor da construção civil, onde a mão de obra é insuficiente. Além da escassez de trabalhadores, há que referir a falta de especialização adequada às exigências de qualidade construtiva para clientes que se tornam cada vez mais exigentes e que denotam a falta desta condição. Após a crise em 2008 que fustigou o setor da construção civil e que fez com que esta entrasse em declínio, muitos profissionais da área emigraram, culminando em muita mão de obra especializada a sair do mercado nacional.

A importância da mão-de-obra qualificada na construção civil deve-se sobretudo ao reforço de equipas de trabalho competentes, contribuindo diretamente para o desenvolvimento diário da obra. Um dos problemas da falta de mão-de-obra especializada na construção civil são as falhas na execução, pelo que a falta de qualificação profissional pode trazer prejuízos superiores ao investimento em mão-de-obra especializada. Um trabalho mal realizado ou com pequenas distrações e falhas não atrasa somente por ter que se fazer ou refazer tudo de novo, mas também pelo custo do material que terá que ser novamente gasto, na maioria dos casos. É sem dúvida importante uma experiência mínima nas funções a desempenhar, bem como adequar o grau profissional a cada uma das tarefas.

A falta de mão-de-obra na construção afeta o valor das habitações e demais tipologias de construção, maioritariamente devido ao impacto significativo no custo de construção. Se a procura é superior à oferta de mão de obra, o preço inevitavelmente sofre aumentos, o que trará consequências para o setor imobiliário. Aliado a este fator, verificamos ainda um crescimento exponencial do custo das matérias-primas e materiais de construção. Recentemente o Instituto Nacional de Estatística divulgou os resultados do Índice de Custos de Construção de Habitação Nova, relativo ao mês de novembro, em que os preços dos materiais aceleraram para 9,4% (8,9% no mês anterior) e o custo da mão de obra aumentou 7,3% (5,2% em outubro). A longo prazo, os efeitos irão trazer um impacto negativo para o orçamento dos portugueses, além do aumento do preço da mão de obra, invariavelmente tudo o que gira em torno do setor será também afetado.

A construção civil tem sido um dos grandes veículos da economia em Portugal, no entanto e apesar de bem remunerado, o trabalho na construção é muito exigente do ponto de vista físico e não é aceite por todos. Foi por este motivo que Portugal teve trabalhadores provenientes de outros países, que com a crise no setor voltaram às suas origens. No entanto, o que há uns anos desencadeou este regresso, pode voltar a ser uma das soluções para o problema. Esta dificuldade não é nova, mas esta escassez é cada vez mais notória à medida que a economia vai recuperando, acabando por atingir todos os setores e podendo vir a tornar-se um travão ao crescimento da economia portuguesa.

Após o início da pandemia e à medida que a economia começa a reabrir, existem ainda apoios do governo que não incentivam à procura de emprego, algo que em pouco tempo também irá atenuar-se, no entanto o incentivo ao emprego nesta área tem sido quase inexistente. Prova disso é a carência de mão-de-obra qualificada e de acordo com Manuel Reis Campos, presidente da AICCOPN (Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas) faltam no setor da construção cerca de 70 mil trabalhadores. Este é um setor que perdeu profissionais e será agora um desafio recuperá-los.