Como pode a tecnologia mudar o setor imobiliário e o turismo no Porto?

Vera Martinez, Associada Sénior do Departamento de Imobiliário da CCA Law Firm

A pandemia provocada pelo vírus COVID-19 obrigou o setor imobiliário a reinventar-se no último ano e a encontrar soluções que impedissem a quebra acentuada deste mercado, o qual tem sido um dos grandes motores responsáveis pela recuperação da economia em Portugal, incluindo no Porto.

Na verdade, e apesar do decréscimo abrupto no turismo e nas economias diretamente associadas a esta atividade, o setor imobiliário manteve-se ativo, assim como o investimento (nacional e estrangeiro) neste mercado, que apresentou uma tendência de contínuo crescimento.

Ora, perante longos períodos de confinamento obrigatório, medidas largamente restritivas, encerramento de fronteiras e limitações nas entradas no país, não existem dúvidas de que a tecnologia teve um papel preponderante para esta situação: por um lado, as visitas a imóveis de forma virtual e as videoconferências com diferentes intervenientes em simultâneo permitiram manter, em certa medida, o contacto próximo e eficiente junto dos potenciais investidores; por outro lado, a utilização de plataformas interativas permitiu a esses mesmos investidores escolher e até personalizar o imóvel que pretende comprar.

Ainda que a dimensão deste fenómeno no contexto específico do turismo se tenha mostrado, comparativamente, inferior, visto que, por razões óbvias, a tecnologia ainda não pode substituir o seu carácter pessoal e presencial, inúmeras entidades deste setor procuraram chegar aos seus potenciais clientes por meios telemáticos e tecnológicos criando, por exemplo, museus interativos e visitas a exposições de forma virtual.

De facto, a tecnologia, através da sua permanente evolução, foi a ferramenta que nos permitiu manter o contacto e a proximidade, que garantiu o teletrabalho e, nesse sentido, a manutenção de inúmeros postos de trabalho, e que foi aproveitada pelos mais diversos setores económicos de atividade na venda à distância de bens e serviços.

Esse constante desenvolvimento permitirá, com toda a certeza, criar plataformas alternativas e novos canais interativos que podem conduzir a uma readaptação semelhante: i) no setor imobiliário, nomeadamente na forma como é disponibilizada a sua oferta e também na simplificação da prática de atos à distância (e de forma totalmente digital); e ii) no setor do turismo, com uma clara aposta na promoção digital e interativa de Portugal no estrangeiro e, até, com o reforço do turismo “virtual”, mais sustentável, garantindo, assim, o contínuo acesso ao que este setor tem para oferecer.

E porquê a cidade do Porto e o norte do país? Qual o seu impacto neste crescimento da era digital? Verdade seja dita: o Porto e a região norte tornaram-se, nos últimos anos, num dos maiores pólos tecnológicos do país, apenas possível pelo claro desenvolvimento das suas universidades e aposta na área da inovação, na criação de parques de ciência e tecnologia e no apoio a startups centradas nestas matérias.

A este respeito, importa referir o crescimento exponencial dos hubs tecnológicos do norte do país, de que é exemplo o Porto Tech Hub, o qual tem criado um verdadeiro technological environment na região. Acreditamos que a alteração visível no tipo de turismo (e de turistas) no Porto tem contribuído decisivamente para tornar a cidade cada vez mais sedutora para as novas gerações de empreendedores e trabalhadores. De facto, já se mostra evidente a tendência de os denominados nómadas digitais e trabalhadores híbridos se instalarem nesta área do país.

Por isso, torna-se fundamental que os operadores económicos ditos tradicionais (principalmente, no contexto dos setores imobiliário e do turismo) saibam dar resposta a este fenómeno e criem as condições para que esta tendência não se venha a revelar efémera e, pelo contrário, se consolide e cristalize.

De facto, se a tendência passa pelos empregadores disponibilizarem meios tecnológicos que permitam o trabalho remoto (facto que a pandemia apenas veio acentuar), poderemos encontrar nesses trabalhadores remotos, que escolhem outras cidades para viver, seja por curtos ou longos períodos de tempo, o trigger para o regresso do turismo, aliado ao contínuo crescimento do mercado imobiliário.

Consequentemente, o crescimento verificar-se-á não só nas grandes cidades, como o Porto, mas também nos concelhos periféricos. Damos como exemplo concelhos como Matosinhos, Vila Nova de Gaia e Maia, onde sempre existiu um estigma suburbano, mas onde se verificou, nos últimos dois anos, um crescimento considerável de transações imobiliárias, muitas delas por investidores estrangeiros. É, portanto, o momento de se impulsionar uma alteração de paradigmas e procurar tornar estas (e outras) cidades atrativas no contexto do setor imobiliário, o que automaticamente impulsionará o crescimento do turismo.

Em suma: não nos restam dúvidas da estreita ligação entre a tecnologia, os setores imobiliário e do turismo, e a cidade do Porto e região norte do país: se, por um lado, o desenvolvimento da tecnologia tem permitido e continuará a permitir o crescimento do setor imobiliário e a retoma do setor do turismo numa altura mais difícil, por outro lado a consolidação da cidade do Porto como polo tecnológico de relevo constitui um chamariz de empresas e entidades que conduzirão ao crescimento necessário ao mercado imobiliário na região Norte do país, com novos residentes estrangeiros, os quais inevitavelmente contribuirão para o crescimento do turismo.

Estando, assim, criadas as condições ideais para que se aposte no desenvolvimento do Porto (e do nosso país) e se relance dois dos setores mais importantes da economia através dos recursos tecnológicos agora disponibilizados, espera-se agora, do Estado Português, que esteja à altura deste desafio, desenvolva legislação adequada em benefício da inovação digital, e promova a adjudicação de fundos públicos no sentido da consolidação desta realidade.

Nesse âmbito, deixamos algumas sugestões que poderiam simplificar procedimentos no contexto das aquisições imobiliárias e do turismo: i) simplificação do processo de realização à distância de atos sujeitos a registo, através de assinatura digital válida (por exemplo, procurações, escrituras de compra e venda, entre outros); ii) aferição da identidade de outorgantes e leitura de atos por videoconferência; iii) assinatura digital válida de atos pelos próprios notários, advogados ou solicitadores; e iv) possibilidade de recolha de dados biométricos em processo de concessão de autorizações de residência no estrangeiro, nomeadamente em Consulados e Embaixadas de Portugal.

Estamos certos de que menos burocracia significa mais investimento (nacional e estrangeiro) e, nessa medida, maior crescimento do setor imobiliário e do turismo.