“A estagflação e o (im) Possível cenário no setor imobiliário”

Esperávamos que 2022 fosse um ano de forte crescimento e o momento para o regresso à normalidade, após dois anos em que a pandemia se revelou uma verdadeira ameaça global. A realidade apresentou-se de uma forma bem diferente à prevista, com um novo cenário económico a surgir instigado pelo conflito bélico. A guerra reavivou memórias do termo estagflação.

O conceito que há décadas não se ouvia falar e que originou uma procura semântica por parte da maioria dos internautas, representa um período económico marcado por uma crise com altas taxas de desemprego e de inflação. A estagflação é um possível cenário vivido na Europa, consequência da incerteza geopolítica que se vive devido à invasão da Rússia na Ucrânia, causado pela inflação decorrente da subida do custo do petróleo e dos preços da energia, que são cada vez mais altos. Com o sucessivo aumento de preços que não está a acompanhar uma evolução económica, ao passo que a inflação cresce, a economia estagna.

Voltemos então à década de 70. O termo estagflação é uma adaptação da expressão original stagflation. Foi usada inicialmente em 1965 por Ian Macleod, um político oriundo do Reino Unido que utilizou o termo para descrever o cenário atual vivido no seu país. Foi durante o seu discurso na Câmara dos Comuns, que Ian Macleod alertou para a situação grave sem precedentes que enfrentava a economia da época, em que simultaneamente acontecia estagnação económica e inflação. Contudo, foi somente em 1973 que o termo foi largamente conhecido ao ser usado para designar a fase difícil que a economia norte-americana enfrentava na intitulada “Crise do Petróleo”.

Com a crise petrolífera e o aumento dos preços da energia, provocados pela guerra da Rússia com a Ucrânia, os especialistas consideram que podemos deparar-nos com um contexto de estagflação, um período económico atípico num país ou bloco de países, que pode impactar os orçamentos das famílias.

Ainda no início deste mês, a agência de notação financeira Moody’s, alertou que a guerra na Ucrânia está a aumentar o risco de estagflação na União Europeia, colocando Portugal entre os países mais vulneráveis na exposição à inflação. Segundo a Moody’s, os países mais expostos a um cenário de estagflação são: Malta, Chipre, Portugal, Eslovénia e Croácia. Heiko Peters, analista sénior da Moody’s, refere que “A invasão russa da Ucrânia exacerbou as questões subjacentes da procura e da oferta e empurrou a inflação para níveis nunca vistos na UE desde meados da década de 1980”. Portugal é, desta forma, apontado pela agência de rating como o sétimo país mais exposto à inflação e o 20.º no ranking dos recursos políticos entre os 27.

Um cenário económico marcado pela estagflação acarreta diversos desafios tanto para o governo quanto para a população. Contudo, não podemos esquecer que o mercado imobiliário tem uma grande importância na economia moderna e na vida de cada um de nós. O ritmo de produção de novos imóveis não está a par com a procura e também a escalada de preços na construção e nas matérias-primas, são um fator impeditivo para um mercado mais robusto, sendo que tem dado origem a um aumento significativo do preço dos imóveis. Aliada a esta instabilidade no ritmo da economia e à inflação que, além de generalizada, encontra-se acima dos patamares previstos, existe também uma mudança de perfil dos consumidores e arrendatários, fortemente impulsionada pela pandemia. A Covid-19 veio alterar a relação das pessoas com seu imóvel, que agora procuram um ambiente mais confortável, sobretudo aqueles que aderiram ao modelo de teletrabalho ou trabalho híbrido.

A procura por imóveis permanece forte, mas se o setor de construção não der conta dessa demanda ou do aumento dos custos, existe a possibilidade mesmo com altas taxas de juros, que os preços dos ativos continuem a subir, podendo originar a estagflação, há meses debatida. No entanto, os especialistas não preveem neste momento uma recessão económica europeia, mas sim uma desaceleração, tendo em conta que os Produtos Internos Brutos dos países europeus estão ainda a recuperar da crise consequente da pandemia.

Nos últimos anos, as taxas de juro têm estado negativas, permitindo aos consumidores aceder a crédito com menos custos e manter em alta a procura.  Contudo, a recente subida da inflação na Europa desencadeou os receios de inflexão da taxa de juro, que iniciou uma trajetória de subida nos últimos meses e acentuou-se com o conflito no leste da Europa. As taxas de Euribor subiram mais significativamente desde 04 de fevereiro, depois de o Banco Central Europeu (BCE) ter admitido na reunião de política monetária que pode vir a subir as taxas de juro diretoras este ano devido à subida da inflação na zona euro.

À data de ontem, as taxas Euribor subiram pela sétima sessão consecutiva e renovaram máximos. A mais utilizada nos créditos à habitação em Portugal, a Euribor a seis meses subiu para 0,984%, mais 0,037 pontos que os 0,947% da sessão anterior, renovando os máximos. No prazo de seis meses, a taxa subiu de 0,162% em junho para 0,466% em julho. As prestações do crédito à habitação vão certamente subir, à medida que as prestações forem revistas nos próximos meses, consoante o contrato tenha sido negociado com a Euribor a 3, a 6 ou a 12 meses.